ODIO E VINGANÇA

 

 

-Menino duma figa!.., Se eu te pegar outra vez me roubando, acabo com tua vida!..

            Cenas com essas não era comum acontecer, mas vez ou outra acontecia, no único armazém de secos e molhados; gêneros e roupas existentes em são Luís . onde Manuel Vilaça, português, de nascimento, mas radicado ali desde criança, conseguira, já moço, formar sua empresa.

A pequena cidade era pobre de habitantes e seus moradores, pobres de dinheiro, espírito, cultura, sociedade, religião. Alguns que dispunham de um pouco mais de dinheiro, moravam na cidade; outros em casebres; a maioria residia nas fazendas do município. Ali, além de pobres de tudo, eram escravos dos patrões. Esses residiam nas grandes cidades e deixavam suas propriedades administradas por capatazes,  os quais recebiam ordens de seus patrões, pelo correio. Prefeito; Delegado de Polícia; Juiz e cãs demais autoridades, dependiam de Manuel Vilaça. Daí se concluía que não adiantava ninguém reclamar.

Graças ao subterfúgio de um quilo ter novecentas gramas e um metro, oitenta centímetros, Manuel, que começara como aprendiz de caixeiro, tonara-se proprietário do negócio, onde tinha de tudo. Se fosse hoje, diríamos que aquilo era um supermercado, pois os fregueses comiam e vestiam-se doze meses e só pagavam uma vez por ano. Manuel passava também por um financiador. Todavia, sua conduta dentro e fora do comercio era o de um avarento, ladrão, mandante, político, enfim, dominador absoluto. Quando os fregueses iam pagar suas contas sempre às encontravam mais altas do que julgavam. Já havia na contabilidade do Manuel, juros e correção monetária, além de certas compras fictícias. Quem provaria o contrário, um ano após?

O pior de Manuel, homem gordo, bigodudo e de estatura mediana, era sua neurastenia; inescrupuloso; violento; malcriado; ignorância religiosa, embora bonzinho para com o vigário. Para correr atraz de um menino, tido por ladrão, não custava nada. E quando isso acontecia, pai, mãe, avos e os demais parentes, mesmos que não tivessem, ouviriam os mais altos e baixos palavrões. O pessoal comprava ali, mas tinham medo de contestar qualquer irregularidade por parte do negociante. Sua única palavra merecia mais fé, do que todo o sermão que o coitado do velho vigário fazia sobre a dolorosa paixão, agonia e morte de Jesus Cristo, na sexta feira santa.

Manuel Vilaça não estava só. Sua mulher, esquelética, alta, com seus quarenta anos mais ou menos, parecendo ter setenta, encarregava-se de completar as desgraças dos fregueses e habitantes sanluisenses. Qual eram os pecados daquele pobre povo, que nem as águas bentas de Frei Anastácio, espargidas pela pequena cidade, conseguiam melhorar? Talvez  fosse a grande distancia entre São Luis  e a Capital, com um correio deficiente; estradas ruins; ausência de telégrafo e estrada de ferro. As mercadorias vinham ao armazém em carroção puxado por burros ou bois.

Escola, havia uma municipal, que funcionavam precariamente, assim mesmo ajudadas pelo negociante. Eletricidade não havia; a iluminação era na base do querosene. Ainda bem que naquele tempo não havia o descontrole do petróleo é nosso, mas pelos árabes. Diante de uma situação patética e calamitosa como era, é claro que os pais procuravam fazer com que seus filhos menores nem passassem pela frente do armazém, que por ironia do povo, chamava-se “ Armazém do Bom Pastor”, que de bom pastor não tinha nada, embora o negociante procurasse mantê-lo alinhado, limpo e bem estocado. Além de Manuel e sua esposa, havia um empregado auxiliar e um garoto, espécie de ofice-boy. Ambos seguiam religiosamente a cartilha patronal.

São Luís não possuía banco, nem caixa econômica, mas Manuel tinha um bom cofre de aço onde guardava documentos, seu dinheiro e de alguns mais afortunados do lugar. Quando realizava suas compras, fazia a dinheiro e por isso trazia mercadorias com bons descontos, favorecendo ainda mais seu lucro anual.

Ainda que os meninos fossem rigorosamente ensinados e advertidos por seus pais, com relação ao avarento e neurastênico Manuel e sua companheira sempre algum garoto endiabrado ou esperto dava uma de gaiato e aproveitando falha do pessoal, filava qualquer coisa do armazém. Coisa de criança, mas se alguém visse, a família pagaria em dobro o valor roubado, pois o negociante debitava à conta do freguês, mas sua raiva e ódio era ver o ladrão roubando na sua cara e fugir, e foi daí que certa vez surpreendeu o “Baianinho”, moleque de doze anos, filho único do casal Maria e Bento Bueno, filando um pedaço de carne seca.

Aquele dia Manuel Levantara-se mais azedo do costume; sua mulher e os empregados estranharam seu modo, suas atitudes; o falar impunha maior respeito. Mas o dia ia passando e ali pelas doze horas, quando o sol estava bem a pique, Baianinho, com ordem e recomendações de sua mãe foi fazer compras, mas o garoto ainda estava sem almoço. Seus pais, coitados, eram realmente pobres, como miseráveis eram os colonos das fazendas ao comprar as migalhas encomendadas por sua mãe e que não eram nada iguais aquilo que via no balcão e prateleiras, aproveitando a ausência do pessoal e a ida do balconista ao fundo, surrupiou uma fatia de jabá e quando ia saindo topou com Manuel que entrava pela porta da rua. Manuel viu o menino tirar e foi o suficiente. Até os diabos no inferno foram responsáveis pelo roubo da carne.

Agarrada e levado ao fundo do armazém, o garoto apanhou de todos e de tudo, mal grado seus urros e esperneamento para escapar. Quando escapou, motivado pelo relacionamento dos opressores, ele caminhou cambaleando até cair morto em frente do casebre de seus pais.

Maria, sua mãe, aguardava ansiosa pela demora do menino e quando saiu para ver se o mesmo vinha retornando, topou com um monte de gente todo esfarrapado e ensangüentado na porta de seu lar. Gritou horrivelmente, mas os vizinhos moravam mais retirados. A mulher, embora reconhecendo as causas desse hediondo crime, saiu como uma louca, nem coragem teve de recolher os trastes de seu filho ali adiante. Foi gritando desesperadamente a chamar pelo seu marido, até o lugar onde Bento trabalhava. Pelo caminho outras pessoas foram vendo e ouvindo sem atinar pelo acontecimento, apenas julgando-a demente, embora a conhecendo que não era. Bento, vendo sua mulher em gritos e desesperada, largou o serviço e seus companheiros também vieram sem rumo , mas o instinto orientava todos. Maria não falava, gesticulava apenas e assim Bento e seus colegas vieram até a cidade e foram ver com seus próprios olhos mais um fenômeno diferente, acontecido na pacata São Luis. Todos compreenderam a longitude do acontecimento. Bento, após recolher o defunto e ajeita-lo na mesa, muniu-se de foice e machado e seus colegas com outras ferramentas o acompanharam e foram todos até o armazém, mas não puderam fazer nada. Manuel dera parte a Policia de um roubo que não houve, mas a autoridade estava ao seu lado; respeitava o que: preguejar o negociante e enterrar o cadáver de Baianinho. Tudo voltou ao normal porque até para se fugir de São Luis não era fácil. Bento tinha que trabalhar, porem mais pobre; ficou sem o filho único e a mulher desmiolada. Entretanto, o acontecido serviu, mais uma vez, de lição para as famílias pobres e até os meninos ficaram com muito medo pelo resto da vida.

Embora pacata, havia sempre alguma novidade em São Luis  e chegou o dia da grande festa, dia em que os fazendeiros, após a safra do ano e recebido o dinheiro, acertavam as contas com Manuel e seus empregados. Os fregueses faziam o mesmo e voltavam a ficar sem dinheiro até o próximo ano.  Isso acontecia todos os anos num circulo vicioso. Quem estava com muito dinheiro era o cofre da venda e Manuel já se preparava para ir a Capital fazer compras. Feita as relações de compras; calculado o quanto ir gastar, Manuel deitou-se, para no outro dia já cedinho levantar-se e seguir viagem. Ao levantar-se perdendo hora, percebeu que seu armazém ardia em fogo. Incêndio proposital ou não , ele não esperou mais nada. Gritou, acordou todo mundo, mas somente a mulher foi ajudá-lo. Ninguém se arriscava querer pagar fogo com baldes e latas vaziam de querosene. E não havia água fácil, pois era na base de poço puxado a manivela. Manuel e sua mulher, cada vez mais aflitos, lembraram do dinheiro guardado no cofre. Tudo ia ser devorado pelas chamas traidoras.

-  Catarina!.. gritou o homem. – Traga-me a chave do cofre!

-   E o fogo, Manuel! Você esta louco!..

-   Louco vou ficar se perder o dinheiro!

Catarina foi apanhar a chave, Manuel, porém, não teve paciência. Muniu-se de um machado e como um leão espavorecido numa jaula, vibrava o machado no cofre, na ânsia de abri-lo e quando Catarina ia entrando no aposento, uma vigota de peroba em chamas caiu sobre sua cabeça soterrando-a Manuel viu e quis socorrê-la, mas o dinheiro dentro do móvel falava mais alto. Era preciso salva-lo e ao se aproximar da defunta carbonizada para apanhar a chave, um punhado de vigotas, caibros, ripas e telhas carregadas de labaredas desabaram sobre sua cabeça, sufocando-o também.Armazém; cofre; dinheiro; mercadorias; roupas e gêneros alem de Catarina e Manuel viraram cinza e todos ficaram sepultados pelo violento incêndio, nunca havia na pequena e pacifica São Luis. Seus moradores limitavam a crer que o castigo demorou, mas chegou.Ninguém era bombeiro para apagar as chamas e Corpo de Bombeiros não havia. E agora, comentavam os fregueses: - Onde vamos comprar? Manuel era carrasco; ladrão;unha de fome; avarento;agiota; dono de São Luis; mandante das autoridades e por fim, assassino, mas mantinha um armazém que matava a fome e vestia os nus. E agora?

O agora será outra Historia!!!

Francisco Piccirilo